Aqui o senhor Tōru Furuya, que interpretou o protagonista, Seiya De Pégaso, nos fez uma retrospectiva da série de agora. Gostaríamos que você captasse o estado de espírito do senhor Furuya ao dublar o Seiya!

 

FAREI DE SEIYA DE PÉGASO O HERÓI SUPREMO!

   Na década de 80, produções de sucesso, a exemplo de Kidō Senshi Gundam, Genma Taisen e Nine, se sucederam. Até então ininterruptos, os papéis principais de animes televisivos acabaram abruptamente junto com o fim da difusão de Futari Daka, em junho de 85. Dragon Ball, meu único trabalho regular, era um personagem coadjuvante. Foi bem na época em que os dubladores oriundos de escolas preparatórias de atores começavam a ser selecionados pouco a pouco para papéis principais. “Logo vai haver uma mudança de gerações… tenho que abrir meu leque de papéis!” — quando eu começava a pensar assim, no outono de 1986, fui convocado para a audiência de Saint Seiya.

O senhor Furuya interpretou Yamcha ao longo de todas as sagas de Dragon Ball

   Eu, que sempre tive o princípio de comparecer às audições munido com o máximo de documentos que eu pudesse coletar, comprei os quadrinhos, que tinham acabado de sair, e, ao ler todo santo dia, realizei um treinamento mental. Com uma infância desventurada, o Seiya, que possui uma força de vontade indomável e se levanta inúmeras vezes mesmo que caia, tem a mesma imagem do Hiyūma Hoshi, um herói realmente ortodoxo. “Talvez seja minha última chance de fazer um protagonista!” — eu, que queria interpretá-lo de qualquer jeito, coloquei os mesmos jeans apertados do Seiya de Pégaso, vesti uma camiseta de surfe vermelha e revesti meus pulsos com faixas, encarando a audição exatamente como um cosplayer.

   Não sei se foi porque essa disposição foi transmitida ao estafe ou porque a imagem da voz combinava, mas, de um jeito ou de outro, eu consegui ganhar o papel do Seiya. Para a promoção do programa, uns dias antes do começo das gravações, houve a filmagem de um vídeo da gincana de programas só com os intérpretes das novas atrações. No ônibus de traslado, quem veio conversar comigo foi o senhor Masayoshi Kawata, produtor da TV Asahi.

   Mostrando-me um maço de documentos da produção de Saint Seiya que trazia consigo e dizendo: “Senhor Furuya, Saint Seiya é…”, ele me deu explicações de uma forma bastante apaixonada sobre a obra e os personagens. Nesse material que recebi dele, tinha até cópias de vários capítulos da obra original retirados da Shōnen Jump em publicação. Já havia muito tempo que eu fazia animes, mas foi a primeira vez que me deparei com um produtor de emissora como esse. Apesar de não ser um diretor de gravação sonora, falar diretamente com um dublador dos sentimentos ardentes em relação à obra!… Nesse momento, mesmo sendo presunçoso, eu fiquei determinado: “Por essa pessoa, eu vou fazer a série estourar de qualquer jeito!”

Competindo com o produtor Yoshifumi Hatano e com o produtor executivo Hiroshi Takeda pelo título de “cavaleiro mais fiel a Atena”, o senhor Masayoshi Kawata é absolutamente apaixonado por Saint Seiya e participou de todos os 114 episódios da série de TV

   Logo após o início da dublagem, fui convidado à residência do autor, o mestre Masami Kurumada. Mal tive tempo para os cumprimentos, e ele me conduziu à sala de estar de uma casa novinha e me pediu para autografar uma parede branquinha. Eu pensei que tinha escutado errado, mas assinei depois de ser instigado várias e várias vezes. Então, parecendo realmente contente, ele disse: “Eu via bastante Kyojin no Hoshi. Eu estava no clube de judô”.

   Quando, sem pensar, eu respondi ao mestre, que tinha uma compleição corpulenta: “Ah, Chūta Ban!”, ele replicou e até fez uma imitação para mim: “Isso mesmo! Ho, Hoshi Yo!” Embora fosse um grande mestre dos autores de mangá populares, ele era bem sociável e inocente como uma criança. Na despedida, a imagem dele ao me dar um forte aperto de mão me comoveu: “Como eu lhe confiei o Seiya, conto com você, Furuya!”

Multicampeão juvenil de judô e herdeiro de uma grande companhia automobilística, Chūta Ban se torna um fiel seguidor de Hiyūma Hoshi no decorrer da série Kyojin no Hoshi (1968). Como o mestre Kurumada praticou judô no ensino médio e era relativamente corpulento para os padrões japoneses, o senhor Furuya o associou ao personagem

   Em meu coração, eu jurei que lançaria mão de toda a sensibilidade e técnica que havia cultivado como ator e que interpretaria o herói supremo, algo que os novatos jamais conseguiriam replicar.

 

 O REENCONTRO COM SEIYA DE PÉGASO EM “HADES: A SAGA DAS 12 CASAS”

   Os rumores sobre a Saga de Hades não cessavam, mas eu nem sonhava que atuaria depois de 13 anos. Mesmo que a animação fosse realizada, se pensarmos na idade real do elenco regular e no orçamento da produção… eu estava conformado com a substituição de todos os dubladores. Quanto ao fato de o estafe ter insistido até este ponto no elenco da série anterior, penso que seja porque a equipe possui o coração de um fã que ama o anime, que ama Saint Seiya, o sentimento que realmente ignora o negócio e tenciona fazer algo formidável.

   Acima de tudo, eles também querem ver. Na dublagem do episódio 1, ao assistir de antemão a todos os laser discs dos 4 filmes lançados nos cinemas, A Lenda dos Jovens Carmesins e os outros, eu já cheguei à gravação com o Seiya que eu interpretei naquela época fresco na memória. E, é lógico, vestido a caráter como nos tempos da audição. Eu estava confiante, mas fiquei embasbacado com o fato de o lindo visual desenvolvido pelo estafe encarregado dessa parte, liderado pelo diretor Shigeyasu Yamauchi, exalar frescor e, ao mesmo tempo, estar inundado com o mesmo espírito ardente.

Com a adição gradual de cenas, o trailer oficial levou os fãs de todo o mundo à loucura

   Eu refleti sobre o que deveria fazer por meio do Seiya desta produção. Começando com a legião de fãs que continuou a expressar seus sentimentos chamejantes pela volta de “Seiya”, o que devo fazer para recompensar os sentimentos dos membros do estafe, que devem ter comido o pão que o diabo amassou para que esse retorno virasse realidade? Como intérprete do papel principal, eu captei fortemente os sentimentos em relação a Saint Seiya de um grande número de pessoas nas mais diversas posições e, é claro, darei tudo de mim na atuação.

   Além disso, até mesmo assumirei a responsabilidade pelas falas de todos os intérpretes. Na hora da dublagem, eu vou fazer tudo que estiver ao meu alcance. Para não ter arrependimentos, para que se torne uma produção ainda mais perfeita…   

No comando do programa Seiya-TV, originalmente transmitido com os OVAs no canal satelital SKY PerfecTV!, o senhor Furuya apresentou aos fãs os bastidores da produção dos 13 episódios por intermédio de entrevistas com os dubladores, visitas à Tōei Animation e reportagens in loco com o diretor Yamauchi e outros membros do estafe. Graças ao programa, é possível compreender a magnitude de sua devoção à obra

   Sempre verificando previamente o mangá, cenário e roteiro várias vezes, confirmava as falas que eu achava suspeitas, ia ao estúdio mesmo que o Seiya não desse as caras, examinava com o diretor até as falas das outras pessoas, me voluntariava para substituir os dubladores que não conseguiam comparecer em virtude de problemas na agenda e tal.

   Eu queria transmitir como um protagonista deve ser aos dubladores mais novos com quem eu dividiria o palco e que já estão fazendo os papéis principais em vários trabalhos. Pois, com o próprio protagonista exteriorizando entusiasmo, eu queria que todos os outros atores se incendiassem para valer.

   Afinal de contas, agora, poderia mesmo ser meu último protagonista… Nunca senti tamanha felicidade por conseguir atuar num anime como nesta série de agora. Eu não senti nem na época em que costumava fazer 7 trabalhos regulares de anime por semana.

 

SENTI O SUCESSO NA PREMIÈRE

     Teve uma première do episódio 1. “Há quanto tempo!? Estou de volta!! Acabei de retornar!” — eu cumprimentei os fãs que lotavam a casa de show. De imediato, ressoaram do lugar as vozes dizendo: “Bem-vindo de volta!” 

   Eu nunca vou me esquecer da comoção naquele momento. A respiração das pessoas que assistiam à exibição, os aplausos ensurdecedores quando terminaram de ver, os cintilantes rostos sorridentes dos jovens que esperavam no corredor… 

   Todos aguardavam ansiosamente pelo retorno. E eles não se contentaram em aceitar a nova produção; eles a reverenciaram. Senti o sucesso só pela exibição prévia. E, também nessa hora, o mestre Kurumada disse aos repórteres da conferência de impressa, com quase 50 veículos: “É por isso que confio totalmente no senhor Furuya!” 

O senhor Furuya contaria com a confiança incondicional do mestre Kurumada até o lançamento desastroso do filme Prólogo do Céu, em 2004

 

TANTO PARA O DIRETOR QUANTO PARA OS ATORES, O IMPORTANTE TALVEZ SEJA O “APEGO”

   Bem, trata-se da gravação da dublagem propriamente dita, mas vamos rememorá-la com a leitura do diário de dublagem publicado no meu site. Ao ler do começo ao fim, junto com a atmosfera amigável e harmoniosa, é interessante que os episódios de “apego” do diretor Yamauchi apareçam em cada capítulo.

   No teste, o Ryō (nota: Ryō Horikawa, o intérprete de Shun) não soltava muito a voz e estava atuando com murmúrios. Como isso diferia da imagem interior que o diretor tinha do Shun, ele não dava sua aprovação de jeito nenhum. O Ryō mostrava discordância da instrução de soltar mais a voz. Presumindo os sentimentos dele, eu disse: “Não será que está realista demais?”, e o Ryō concordou: “Ah, é isso, não é!?”

   Se fosse atuar na vida real, é claro, como se trata de falas de solilóquio, não é necessário soltar a voz. Se fosse um drama em live-action, a atuação do Ryō estaria o.k. Mas, num anime, sobretudo na obra Saint Seiya, uma performance muito realista vai acabar dissonante. O diretor decerto também queria transmitir isso.

   Uma vez que compreendeu, eu não esperava menos de um veterano como o Ryō! Na cena seguinte, com o Tatsumi, ele já havia se convertido completamente no Shun de antigamente. Parando para pensar agora, talvez o Ryō quisesse tentar, por meio desta nova série, uma representação real em animes. Como eu tentei com o Amuro no passado… (Do episódio 3)

Apesar da grande fama obtida com a dublagem de Shun de Andrômeda e de Vegeta, o grande bad boy de Dragon Ball Z (1989), o senhor Horikawa atuou em vários filmes produzidos para a TV japonesa. A incursão em outras áreas da atuação provavelmente desencadeou essa pequena dificuldade na hora de soltar a voz na dublagem    

   Como o Shaka é, de um jeito ou de outro, um ser similar a Buda, acho que representá-lo é muito difícil. Se é para representar uma sensação opressiva e transcendental, acho que uma forma de atuação em que se fala com fleuma e serenidade casa bem, mas, quando se quer que ela nos permita sentir que o cosmo interior está em seu paroxismo, a expressão também é delicada.

   Apesar das dificuldades, o Mitsuya (nota: Yūji Mitsuya, o intérprete do Shaka) ia tirando habilmente coelhos da cartola de acordo com as exigências do diretor, ao mudar várias e várias vezes o jeito de falar. Os atores devem corresponder precisamente às demandas do diretor a todo momento, mas, como é uma diferença realmente sutil, o que é bom e o que é ruim? Ao chegar a esse ponto, acaba se tornando a preferência do diretor. Na minha opinião, no fim das contas, tenho a impressão de que retornamos ao que o Mitsuya fez no início. Entretanto, isso também ocorre bastante. O importante, tanto para o diretor quanto para o ator, de todas as possibilidades, talvez seja o “apego” que eles perseguem. (Do episódio 5)

A renitência do diretor Yamauchi em jamais aceitar nada menos que a perfeição estimulou os atores, aumentando a densidade das performances

   No estúdio, trocávamos muitas piadas, mas, quando chegava a hora de atuar, tanto o grupo recém-chegado dos cavaleiros de ouro quanto os veteranos dos cavaleiros de bronze queimavam seu cosmo como loucos e tinham um duelo de vida ou morte cruzando as lâminas chamadas de falas.

   Sempre que terminávamos um episódio, íamos nos divertir num bar da vizinhança junto com o estafe e trocávamos reflexões e reclamações do dia em questão sem nenhuma reserva. Isso se torna uma lição para a próxima vez.

 

DORAVANTE, CONTINUAREMOS A QUEIMAR NOSSO COSMO DESESPERADAMENTE

   Juntamente com a alegria da volta da série, “Hades: A Saga das 12 Casas” se iniciou enquanto acalentávamos a insegurança de não ter certeza se faria sucesso ou não, mas, no fim das contas, se tornou um grande sucesso como OVAs, e até o Seiya, que apareceu pouco em virtude do fato de os cavaleiros dourados serem os principais, mostrou a que veio com falas galantes. E, com as comoventes cenas de choro, pude mostrar do que o Furuya chorão é feito.

A pungente atuação do senhor Tōru Furuya na cena do pranto de Seiya

   Embora eu não possa falar nada das produções futuras no presente momento, graças ao sólido trabalho de equipe, devemos exibir um Saint Seiya ainda mais sublime. Minha promessa para os fãs que queimam seu cosmo freneticamente continuará de pé daqui para frente!

Também no estúdio de dublagem, o senhor Furuya personifica o Seiya com alta tensão. Desempenhando funções como a de apresentador do Seiya-TV, nesta série de agora, ele nos mostrou sua versatilidade atuando em várias áreas diferentes

 

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Aficionado sectário de Saint Seiya desde 1994, sou um misoneísta ranzinza. Impelido pela inexorável missão de traduzir todas as publicações oficiais da série clássica, continuo a lutar. Abomino redublagens.

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