No inverno de 90, após o fim da serialização na revista Shōnen Jump Semanal, o último capítulo de Saint Seiya foi publicado no primeiro número da edição especial da V-Jump, lançado no mesmo ano, fechando as cortinas de uma história que se estendeu por aproximadamente 5 anos. Na época, o fato de apenas o último capítulo ter sido veiculado numa revista diferente suscitou uma miríade de especulações entre os fãs, mas a realidade é simples.
Na verdade, pelo fato de a Saga de Hades ter sido mais ardente do que o previsto, o último capítulo acabou não podendo ser acondicionado no número programado. Por esse motivo, a publicação do último capítulo acabou na V-Jump, uma revista que não apenas seria lançada imediatamente após o fim da serialização na Shōnen Jump mas também tinha a previsão de publicar um one-shot do mestre Masami Kurumada, um trabalho para o qual suas páginas já haviam sido reservadas. Agora o que se tornará objeto de interesse é o conteúdo da história de capítulo único que fora originalmente programada para ser lançada na V-Jump.

Na época em que a publicação de uma obra kurumadiana na V-Jump foi determinada, o fim da serialização de “Seiya” já havia sido decidido, mas o título ainda gozava de grande popularidade entre os fãs. Por isso, esse one-shot seria uma história lateral de “Seiya”; havia a previsão de que uma antiga aventura dos cavaleiros dourados fosse retratada.
No entanto, como ficou claro com bastante antecedência que o clímax da Saga de Hades não caberia no número de encerramento da serialização, não houve nenhuma confecção de roteiro dos quadros ou imagens de criação para essa história extrínseca, que acabou por se tornar uma obra-fantasma.
Além do mais, nas páginas de artigos desse primeiro número da V-Jump, também foi anunciado o projeto Saint Paradise. Visando o grupo de faixa etária inferior que havia se tornado fã ao assistir à série de TV, era um projeto que buscava expandir “Seiya” por meio de SD figures com a cabeça representando metade do corpo, formato que estava na moda naqueles tempos.

A V-Jump se encerrou no terceiro número e, por ter sido renovada como uma revista focada em informações sobre jogos, o desenvolvimento na publicação terminou em pouco tempo; porém, entre o verão de 91 e o outono de 92, alguns artigos foram lançados pela Bandai.

Além disso, o anúncio do planejamento inicial do anime da Saga de Hades também ocorreu no primeiro número da V-Jump. Proposto pelo senhor Yoshifumi Hatano, da Tōei Dōga (nome do estúdio à época), que desempenhou a função de produtor da série de TV, o projeto foi uma tentativa de lançar a Saga de Hades como uma série de animação para vídeo.

No entanto, esses planos acabaram abortados em virtude de problemas como a estagnação do mercado de OVAs no período. Depois desse revés, o senhor Hatano, que nutria uma afeição inigualável por “Seiya”, continuaria a projetar o retorno — tanto no formato de série de TV quanto no de OVAs — toda vez que uma oportunidade se apresentasse, mas, infelizmente, sem conseguir que seu intento se materializasse, ele faleceria em 95.

Quem herdaria esse último desejo do senhor Hatano seria o senhor Kōzō Morishita, da Tōei Animation, o homem que atuou como o primeiro diretor da série de TV e, posteriormente, produziu “Seiya” junto com o finado veterano.

Além de possuir, evidentemente, tanto carinho por “Seiya” quanto o senhor Hatano, como desempenhara a função de produtor de Dragon Ball Z e Doctor Slump: Arale-Chan, o senhor Morishita teve também várias oportunidades de trabalhar com a Shūeisha após o fim de “Seiya”, figurando como o personagem na posição mais apropriada para promover o projeto da animação da Saga de Hades.

É claro, mesmo dentro da Shūeisha, as vozes que clamavam por uma nova animação de “Seiya” não se extinguiram. E, em 2001, aconteceu algo que parecia suportar essas vozes. Trata-se do grande sucesso de Ring ni Kakero 2, que tivera sua serialização iniciada na antologia Super Jump. Entrando de cabeça no retorno de “Seiya”, obra magna do mestre Kurumada que rivaliza com esse título, a Shūeisha, no intuito de relembrar os fãs que no passado foram à loucura com “Seiya” desse magnetismo, lançou o meticuloso manual Saint Seiya Taizen por meio da Homesha, uma subsidiária.

Ainda por cima, como uma série da Gekkan Tokumori, a editora lançou pela mesma companhia 5 volumes da Compilação de Saint Seiya, uma recapitulação dos quadrinhos com foco nos 5 cavaleiros de bronze principais. Com todos os produtos registrando vendas favoráveis, a animação da Saga de Hades passou a ganhar ares de realidade de uma hora para outra.

Por outro lado, o memorando de uma proposta refinada pelo senhor Morishita foi confiado ao iniciante Hiroyuki Sakurada, recém-escolhido como produtor da Tōei Animation a cargo de “Seiya”. Então, em agosto de 2002, a primeira conferência geral — com os interessados se reunindo no mesmo lugar a fim de transformar os planos em realidade — seria levada a cabo na Shūeisha. Os participantes eram a Shūeisha e a Tōei Animation, a emissora SKY PerfecTV!, a agência de venda de DVDs Bandai Visual e a Bandai, que realizariam o lançamento dos produtos derivados, e a consultora Think Port.

Como se depreende desses membros, Já estava definido desde o início o modelo de negócio no qual ocorreriam o lançamento gradual em DVD e a simultânea expansão dos produtos após a presente produção ir ao ar na SKY PerfecTV!.
Já que a composição da série num total de 13 episódios, a representação da luta nas 12 Casas até o colapso do castelo de Hades e conteúdos como o enredamento dos cinco cavaleiros de bronze da turma de Seiya numa trama que, nos quadrinhos, é centrada no embate dos cavaleiros dourados com os espectros foram fixados ainda no estágio do projeto, com os temas discutidos nesta reunião gravitando principalmente em torno de coisas como ajustes de detalhes e a escolha de datas para a divulgação de informações pela publicidade, a ressurreição de “Seiya” se iniciava sem grandes empecilhos.

Assim, a nova série de anime a ser produzida depois de 13 anos teve seu título oficial determinado: Saint Seiya — Hades, o Imperador do Submundo: A Saga das 12 Casas, e a seleção do estafe começou para valer. Logo de saída, a senhora Michiko Yokote, uma roteirista talentosa mas sem experiência em “Seiya”, acabou sendo apontada para a composição da série.
Pela mesma razão que o bastão de produtor fora passado do senhor Morishita ao iniciante Sakurada, poder-se-ia dizer que se trata da manifestação do entusiasmo de uma equipe de produção que quer o “Seiya” dos novos tempos feito por uma nova geração.

A princípio, a senhora Yokote foi roteirizando o mangá fielmente, mas, após ler a minuta do enredo, o mestre Kurumada a aconselhou: “No que tange à Saga de Hades do mangá, existem muitos elementos que fui obrigado a adicionar e, como também houve episódios que não tive escolha senão omitir, não me importo que, ao ler os espaços entre os quadros do mangá, você insira elementos mais característicos do anime”.
É por isso que as falas de Hades: A Saga das 12 Casas, mesmo no que diz respeito a tomadas alheias à turma de Seiya, não são simplesmente citações do mangá, e sim fruto de meticulosa consideração.

Entrementes, o profissional escolhido para a direção foi o senhor Shigeyasu Yamauchi. Participando também da série de TV como diretor de episódios, ele se encarregou de vários capítulos memoráveis. Contudo, o maior motivo da indicação do senhor Yamauchi foi, sem sombra de dúvida, o anseio pelas habilidades de direção que ele mostrou nos filmes de “Seiya” A Grande Batalha dos Deuses e A Lenda dos Jovens Carmesins. Mesmo se tratando de duas histórias completamente originais do anime, por terem sido erigidas sem solapar a cosmovisão do mangá, essas duas produções são excepcionalmente estimadas pelos fãs.

Por isso, concluiu-se que ninguém além do senhor Yamauchi seria capaz de ir emaranhando, sem dificuldades, a turma de Seiya — que praticamente não se envolve no mangá — na história e ainda conseguir um desenvolvimento cheio de altos e baixos.
Além disso, na esteira do senhor Yamauchi, tal como na série de TV, foi decidido que o senhor Shingo Araki e a senhora Michi Himeno, personagens imprescindíveis ao anime de “Seiya”, participariam do character design. Uma força-tarefa ideal foi sendo formada para elevar “Seiya” à condição de obra absolutamente nova enquanto efetuava a manutenção dos bons aspectos da produção passada.
Com a adição gradual de cenas dos demais episódios, o trailer oficial levou os fãs de todo o mundo à loucuraEntão, a dublagem do primeiro episódio de Hades: A Saga das 12 Casas finalmente foi realizada em outubro de 2002. Antes disso, encabeçado pelo diretor Yamauchi, o estafe principal se reuniu diante da tabuleta mortuária do senhor Hatano, o primeiro produtor, que tombou sem conseguir concretizar o grande desejo de uma nova animação, para comunicar que a produção de Hades: A Saga das 12 Casas havia se iniciado sem percalços.
Com a data da gravação coincidindo misteriosamente com o aniversário do senhor Hatano, conta-se que uma oferenda de arroz vermelho com a mensagem “Parabéns pelo retorno de ‘Seiya’!” foi entregue no estúdio pela viúva do finado produtor.

Enquanto isso, começando pelas notícias especiais veiculadas na Super Jump 19 de 2002, o início de Hades: A Saga das 12 Casas foi oficialmente anunciado aos fãs por toda sorte de revistas lançadas em setembro. Ademais, no número 21 da Super Jump e na Shōnen Jump 40 de 2002, foram realizados o anúncio da première e as inscrições dos espectadores.
Embora esse evento tenha sido planejado com o intuito de fazer até mesmo com que os fãs menos fervorosos — pessoas que foram à loucura na época, mas viram essa paixão se tornar apenas uma memória hoje em dia — se lembrarem dos sentimentos dos velhos tempos, os organizadores ficaram pasmos com o número de inscrições excedendo todas as expectativas.
Os fãs de “Seiya” ainda estavam vivos e fortes, e nem é preciso dizer que o evento, realizado no dia 2 de novembro de 2002, foi um sucesso monumental! Experimentando nostalgia e, ainda assim, emoções novas com a projeção do primeiro episódio de Hades: A Saga das 12 Casas, os aficionados que lotaram o auditório o prestigiaram com uma interminável salva de palmas.

Havendo também a aparição, como convidada, da gravure idol Eriko Satō, que deu voz à Shunrei, ocorreu uma avalanche de cobertura, e o evento foi amplamente noticiado nos sete diários esportivos do dia seguinte e em outras publicações. Consequentemente, parece que houve uma legião de fãs que ficou sabendo da transposição de Hades: A Saga das 12 Casas ao ler esses artigos.
Amparada pelo senhor Hirotaka Suzuoki e pelos demais dubladores, a bela Eriko Satō, famosa modelo de revistas masculinas à época, ingressou na dublagem de Saint Seiya como star talent, realizando um ótimo trabalhoAo que tudo indica, as gravure idols têm uma influência surreal. Como se não fosse o bastante, entre os convidados do evento, outro personagem fez um grande estardalhaço: o pro wrestler Yoshihiro Takayama. Originalmente um fã de Ring ni Kakero, o senhor Takayama já tinha estreitado laços de amizade com o mestre Kurumada havia tempos. Portanto, ele fora convidado ao evento na qualidade de amigo do autor e não tinha qualquer intenção de subir ao palco nem nada do tipo. Entretanto, num átimo, a conversa esquentou e, quando nos demos conta, no palco, ele acabou sendo instado pelo mestre Kurumada a atuar em Hades: A Saga das 12 Casas.
Posteriormente, o papel do senhor Takayama foi definido: o cavaleiro de prata Sirius de Cão Maior, que aparece no episódio 3. Sua técnica secreta não tinha nome, mas, na hora da dublagem, foi batizada pelo mestre Kurumada de Great Mountain Smasher.
Oriundo do pro wrestling (luta coreografada), o senhor Takayama protagonizou uma das batalhas mais brutais da história do MMA, travando uma verdadeira guerra contra Don Frye, um dos campeões dos primórdios do UFC, no evento japonês Pride. O embate aconteceu em 23 de junho de 2002 e transformou Yoshihiro Takayama numa celebridade instantânea no Japão. Apreciador de todas as formas de luta e um notório espectador do evento, o mestre Kurumada se tornou um amigo próximo do lutador, convidando-o para dublar Sirius de Cão Maior. Lamentavelmente, o senhor Takayama acabou ficando tetraplégico após sofrer uma lesão medular durante um evento de pro wrestling em 2017Então, no dia 9 de novembro do mesmo ano, a difusão do episódio 1 de Hades: A Saga das 12 Casas pela SKY PerfecTV! finalmente tem início. No período de 1 mês a partir da estreia, o número de residências que assistiram ao primeiro episódio chegou a inacreditáveis 12 mil.
Por se tratar de um resultado soberbo para a primeira produção de anime veiculada pela SKY PerfecTV!, os envolvidos puderam esquecer as agruras da confecção do resto da série e respirar aliviados por um tempinho. Além disso, antes do início da versão original do episódio 1, uma compilação de cerca de 30 minutos do seriado televisivo também foi exibida (incluída como bônus no DVD 1).
Alinhando os eventos retratados na série de TV em ordem cronológica, o compacto consiste num especial em que os personagens originais do anime, a começar com figuras como os cavaleiros de aço e os guerreiros-deuses, aparecem em massa.
Exibido antes do OVA 1 no canal satelital, o resumo foi concebido por Atsushi Katsumata a fim de avivar as memórias dos fãs dos anos 80 e deixar os novos espectadores a par das batalhas que antecederam a conflagração com o Imperador do Submundo
A priori, a presente obra não seria uma continuação do seriado televisivo; ela foi idealizada com o conceito de uma nova série, animada com foco na primeira parte da Saga de Hades dos quadrinhos. Mas, no fim das contas, por não ter havido uma descrição que objetava o cenário da série de TV durante a dramatização, pode-se dizer que, por meio da inserção desse resumo, os fãs que conheceram “Seiya” através do anime da TV também conseguiram adentrar o universo da nova produção sem desconforto.
Em seguida, a marcha inabalável de “Seiya” continuou. No dia 21 de dezembro do mesmo ano, antecedendo o DVD de Hades: A Saga das 12 Casas, chegou às lojas o primeiro volume (Pegasus Box) do produto Saint Seiya DVD-Box, o lançamento — dividido em 5 caixas — dos 114 capítulos da série de TV em DVD, e, apesar de se tratar de um item de valor elevado, o artigo fez um sucesso esmagador, com a primeira tiragem vendendo 25 mil caixas! Sem tempo para perplexidade, o primeiro DVD de Hades: A Saga das 12 Casas, que começou a ser vendido no dia 25 de janeiro de 2003, teve mais de 30 mil unidades despachadas apenas na tiragem inicial, consolidando-se como um sucesso sem precedentes entre as obras de anime recentes.

Por fim, passemos à introdução de algumas histórias secretas de Hades: A Saga das 12 Casas que não foram publicadas nos livretos de explanação dos DVDs. Para começar, o filme de Pegasus Fantasy foi adotado como abertura desta produção, mas, inicialmente, também foi aventado o plano de utilizar a abertura Seitōshi Shinwa (Soldier Dream), trocando as imagens de Posseidon e das marinas por imagens de Hades e dos espectros. Entretanto, infelizmente, esse plano foi descartado. Depois disso, houve muitas reviravoltas até a definição do desenvolvimento da luta do clímax.

No mangá, sem lutar com Radamante, Seiya pula no buraco que leva ao submundo no encalço de Valentine, e os outros quatro também seguem junto com Dōko. Contudo, partindo do pensamento de que não haver uma grande luta no final é realmente pouco catártico, foi decidido que providenciariam um grande inimigo para se interpor no caminho da turma de Seiya. Para esse candidato, também surgiu a ideia de um personagem que fosse o guarda-costas de Radamante, uma figura original do anime; porém, no frigir dos ovos, como é de conhecimento geral, a escolha recaiu no próprio Radamante, o símbolo do lado inimigo desta produção. A série acabou com um desfecho no qual, embora seja impotente contra o juiz, Seiya revida um ataque, e os dois caem no precipício que conduz ao submundo sem que se conheça o resultado do embate. As batalhas que ocorrem no castelo de Hades foram todas retrospectivamente concebidas a partir deste ponto.
Nos quadrinhos, é dito que o trio de cavaleiros dourados não foi rival para Radamante devido à existência de uma barreira em volta de toda a extensão do castelo de Hades, mas, no anime, isso não foi esclarecido. Trata-se de uma providência para enfatizar o gigantesco poder do antagonista a fim de aumentar o impacto do momento em que o golpe de Seiya o atinge.

Desta maneira, tentamos recapitular de forma sucinta a trajetória de 13 anos até a volta de “Seiya”, mas não significa que as batalhas de Pégaso e de seus amigos tenham terminado aqui. Queremos acreditar que o dia em que vamos poder reencontrá-los não está tão distante assim…



